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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Revisando conceitos

Onegaishimasu!

(^_^)

Kǒngfūzǐ (Confúcio)

"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha." Confúcio (Kǒngfūzǐ)

Essa máxima sintetiza, de maneira bastante precisa, o espírito do aprendizado contínuo. O conhecimento não é adquirido de uma só vez, mas construído gradualmente, por meio do estudo, da prática e da reflexão. É justamente esse princípio que orienta esta série de publicações.

Revisando os conceitos fundamentais

Nos textos anteriores foram apresentados alguns conceitos considerados essenciais para a compreensão das artes marciais japonesas sob uma perspectiva histórica, cultural e linguística. Entre eles destacam-se:

  • a importância da pesquisa como instrumento de construção do conhecimento;

  • o reconhecimento de que não existem verdades definitivas, mas interpretações continuamente sujeitas à revisão;

  • a necessidade de manter o equilíbrio entre teoria e prática, conforme o princípio do Bunbu-ichi (文武一);

  • a conveniência de conhecer a terminologia básica da língua japonesa;

  • a utilização de um sistema padronizado de romanização para a transcrição dos caracteres japoneses;

  • noções introdutórias sobre Kanji (漢字), Kana (仮名) e Rōmaji (ローマ字);

  • as principais características do Sistema Hepburn de Romanização.

Esses conhecimentos constituem uma base importante para evitar equívocos bastante comuns na literatura ocidental sobre artes marciais japonesas.

Algumas características da língua japonesa

Antes de prosseguir, convém compreender determinados aspectos estruturais da língua japonesa que frequentemente são desconsiderados quando seus termos são incorporados às línguas ocidentais.

De maneira geral, a língua japonesa apresenta características bastante distintas do português:

  • não possui artigos definidos ou indefinidos;

  • os substantivos não apresentam gênero gramatical;

  • não existe flexão de plural semelhante à das línguas latinas;

  • praticamente todas as palavras terminam em vogal, sendo a única exceção a consoante nasal n (ん).

Embora possam parecer detalhes meramente linguísticos, essas características influenciam diretamente a forma correta de escrever a terminologia utilizada nas artes marciais.

O problema da pluralização

Um dos equívocos mais frequentes consiste em pluralizar palavras japonesas de acordo com as regras do português.

São comuns expressões como:

  • Katas;

  • Senseis;

  • Dojos;

  • Samurais.

Sob o ponto de vista da língua japonesa, entretanto, essas formas são incorretas.

Em japonês, os substantivos permanecem invariáveis. A ideia de plural é determinada pelo contexto da frase ou pelo uso de numerais e partículas específicas, não pela adição da letra "s" ao final da palavra.

Assim, recomenda-se escrever:

  • os kata;

  • os sensei;

  • os dōjō;

  • os samurai.

Observe que apenas o artigo é flexionado em português; o vocábulo japonês permanece inalterado.

Um exemplo bastante conhecido

Não raro surgem discussões como:

"O correto é escrever os Katas?"

ou ainda:

"O correto é as Katas."

Na realidade, ambas as construções apresentam o mesmo problema: a pluralização do substantivo japonês.

Como a língua japonesa não possui flexão de plural, o correto é manter a palavra invariável:

  • os kata;

  • as kata.

Em português, o emprego de "os" ou "as" dependerá do contexto em que o termo for utilizado. Entretanto, independentemente da escolha do artigo, a palavra japonesa não deve receber a desinência de plural.

Embora essa construção possa causar estranhamento aos falantes do português, ela respeita a estrutura original da língua japonesa e vem sendo adotada, cada vez mais, por pesquisadores e tradutores especializados.

A pronúncia das palavras terminadas em su

Outro aspecto frequentemente interpretado de maneira equivocada diz respeito à pronúncia da sílaba su (す) quando aparece no final das palavras.

Na língua japonesa, essa vogal frequentemente sofre um processo fonético denominado desvozeamento (devoicing), tornando-se praticamente inaudível em determinadas situações. Isso, contudo, afeta apenas a pronúncia, jamais a escrita.

Por essa razão, as formas corretas são:

  • Onegaishimasu (おねがいします);

  • Osu (おす);

  • Arigatō gozaimasu (ありがとうございます).

Na fala cotidiana, entretanto, essas palavras costumam ser pronunciadas aproximadamente como:

  • Onegaishimass;

  • Oss;

  • Arigatō gozaimass.

A diferença entre escrita e pronúncia constitui uma característica natural da língua japonesa e não justifica a alteração da grafia.

A escrita correta como instrumento de aprendizagem

Alguns praticantes defendem que escrever "Oss" ou "Onegaishimass" facilitaria o aprendizado da pronúncia, especialmente para iniciantes.

Todavia, essa adaptação não se mostra necessária.

A experiência demonstra que basta explicar ao aluno que determinadas vogais finais possuem pronúncia reduzida para que ele compreenda rapidamente a diferença entre a forma escrita e a forma pronunciada.

Ensinar a grafia correta desde o início evita a consolidação de erros e contribui para preservar a terminologia original das artes marciais japonesas.

Considerações finais

Pode parecer que essas observações tratem apenas de pequenos detalhes linguísticos. Contudo, nas artes marciais tradicionais, o cuidado com os detalhes sempre foi entendido como parte do próprio processo de aperfeiçoamento.

Escrever corretamente os termos japoneses não representa mero preciosismo acadêmico. Trata-se de uma demonstração de respeito pela língua, pela cultura e pela tradição que deram origem ao Budō.

Da mesma forma que buscamos executar corretamente um kata ou aperfeiçoar continuamente uma técnica, também devemos procurar utilizar a terminologia de maneira precisa.

Esse compromisso com a exatidão, o estudo e a melhoria contínua constitui uma das características fundamentais do verdadeiro praticante das artes marciais japonesas.

Denis Andretta
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Onegaishimasu! (^_^)

O uso correto da romanização

Onegaishimasu!

(^_^)

Como praticante de três artes marciais distintas — duas originárias de Okinawa, ou, mais precisamente, do antigo Reino de Ryūkyū, o Karatedō (Shitō-ryū) e o Kobudō, e uma de origem japonesa, o Iaidō, mais especificamente o Musō Jikiden Eishin-ryū — considero natural abordar temas relacionados a essas tradições marciais.

Antes, porém, de tratar especificamente de cada uma delas, é importante apresentar alguns aspectos fundamentais que facilitarão a compreensão das publicações e esclarecerão os motivos pelos quais utilizo determinadas terminologias, grafias e convenções ao longo deste trabalho.

Dois pontos que considero indispensáveis para qualquer estudo sério sobre as artes marciais japonesas são o Nihongo (日本語, língua japonesa) e os sistemas de romanização.

A importância da língua japonesa

Tabela Hiragana

Não é necessário falar japonês para praticar Karatedō, Kobudō ou Iaidō. Entretanto, conhecer os principais termos empregados durante os treinamentos é fundamental, pois a grande maioria deles provém da língua japonesa.

Como é de conhecimento geral, os japoneses não utilizam o alfabeto latino, mas um sistema de escrita composto por ideogramas e silabários. Esses sistemas são conhecidos como Kanji (漢字) e Kana (仮名), este último dividido em Hiragana (ひらがな) e Katakana (カタカナ).

Quando esses caracteres são transcritos para o alfabeto romano, recomenda-se a utilização de um sistema padronizado de romanização, preservando a fidelidade fonética e o rigor técnico. Atualmente existem três principais sistemas de romanização do japonês: Hepburn (Hebon-shiki), Kunrei-shiki e Nihon-shiki. Dentre eles, o Sistema Hepburn é o mais difundido internacionalmente e o mais utilizado no Ocidente, razão pela qual foi adotado nesta obra.

Sobre o uso correto da romanização

Naturalmente, qualquer pessoa pode escrever "à sua maneira". Contudo, para aqueles que buscam seriedade e comprometimento — valores inerentes ao verdadeiro praticante de Budō — essa dificilmente será a melhor escolha.

Proceder dessa forma seria equivalente a afirmar:

"Eu sei que existe uma forma correta de executar o gedan-barai (também denominado harai-uke ou harai-otoshi), mas prefiro fazê-lo do meu jeito."

Como observa Nagatoshi Yamaguchi:

"Falar japonês, todos são capazes. Escrever e ler japonês corretamente, nem todos conseguem." (YAMAGUCHI, Nagatoshi)

Aprender a escrever japonês é uma tarefa exigente. A escrita japonesa constitui, como tantos outros aspectos da cultura nipônica, um verdadeiro (道), um caminho que pode ser percorrido durante toda a vida.

Entretanto, reconhecer os principais Kanji relacionados às artes marciais e aprender os caracteres dos silabários Hiragana e Katakana está ao alcance de qualquer praticante disposto a dedicar um pouco de tempo, paciência e disciplina aos estudos.

A adoção de um sistema padronizado de romanização não representa mero preciosismo acadêmico. Ao contrário, demonstra respeito pela língua japonesa, facilita a comunicação entre pesquisadores e praticantes e contribui para preservar a correta pronúncia e compreensão dos termos técnicos empregados nas artes marciais.

Próximos passos

Em uma publicação futura apresentarei o Sistema Hepburn de romanização, bem como uma introdução prática aos silabários japoneses.

Àqueles que desejam iniciar seus estudos da escrita japonesa, recomendo começar pelo Katakana, empregado principalmente para palavras estrangeiras, nomes próprios e onomatopeias. Posteriormente, o estudo do Hiragana, utilizado na escrita das palavras nativas da língua japonesa, torna-se um processo bastante natural.

Existem excelentes apostilas, cursos e materiais gratuitos disponíveis na internet que ensinam não apenas os caracteres, mas também a ordem correta de seus traços. Esse aspecto merece atenção especial, pois, assim como nas artes marciais, a caligrafia japonesa também possui técnica, sequência, ritmo e disciplina próprios.

Conhecer minimamente a língua japonesa não é um requisito para praticar Karatedō, Kobudō ou Iaidō. Todavia, representa um importante passo para compreender com maior profundidade a cultura que deu origem a essas artes e para interpretar corretamente muitos dos conceitos filosóficos, históricos e técnicos nelas presentes.

Denis Andretta
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Onegaishimasu! (^_^)

Ōyō , autilização prática das técnicas

Ōyō (応用, Ōyō ) — lit. “aplicação” , “emprego” , “uso prático” ou “adaptação” . Nas artes marciais japonesas, refere-se à utilização prátic...